Humberto barbato, presidente da associação brasileira da indústria elétrica e eletrônica (abinee).

Ao avaliar as informações do Ministério do Desenvolvimento da Indústria e Comércio Exterior (MDIC) acerca do nível de intensidade tecnológica dos produtos industriais exportados pelo Brasil de 1996 a 2009, notamos que o atual governo soube aproveitar o momento chinês no que tange a sua necessidade de importações de commodities e, em função disso, fez o atual saldo do balanço de pagamentos que nos tirou da eterna dependência do FMI e do risco de crises externas.
Se em função de nosso saldo nas contas externas falamos de forma robusta em diversos foros internacionais, dispostos a mediar conflitos internacionais seculares e a assumir responsabilidades externas um tanto questionáveis quando não conseguimos dar cabo a nossas próprias mazelas, existem setores industriais que estão pagando elevado preço pelo sucesso gerado por nossas commodities.
O mesmo estudo do MDIC demonstra também o quanto tem sido insignificante nossa penetração externa com produtos industrializados de média ou alta tecnologia. Tal sinalizador, minimamente, deveria alertar as autoridades encarregadas por tais áreas de governo a refletir com profundidade acerca da eficiência dos programas visando o desenvolvimento da tecnologia e a efetividade da política industrial.
Por outro lado, como algumas doenças traiçoeiras, o câncer da desindustrialização tem atacado silenciosamente vastos setores industriais, como já tínhamos alertado há bastante tempo. Desde que nossa moeda passou a se valorizar em face das “forças do tal mercado”, muitas indústrias, num primeiro momento, optaram por substituir componentes nacionais por importados para manter sua competitividade, diminuindo sensivelmente a intensidade de cadeias produtivas.
Agora, para muitos produtos estamos no segundo estágio, deixamos de produzir no Brasil, passamos a importar, sobretudo do leste asiático, com a marca do fabricante local, com a garantia local, com a assistência técnica local, mas não mais se fabrica no Brasil. Afinal, o Brasil está com o bolso cheio.
Nos últimos tempos, a participação da indústria, principalmente a de transformação, tem perdido espaço na composição do PIB brasileiro. De 1993 até hoje, caímos de 26% para apenas 13,5%, ou seja, quase à metade. Esse processo tem sido identificado por diversos segmentos, dentre eles o setor eletroeletrônico. Embora o mercado interno, neste período pós-crise, tenha apresentado forte dinamismo e importante crescimento do consumo, sustentado pela redução temporária de impostos e pela facilidade de acesso ao crédito, a indústria instalada no país não consegue competir com os produtos importados, que, a cada dia, ganham mais e mais terreno.
Apoiados num real extremamente valorizado, produtos acabados começam a invadir o mercado interno, prejudicando de forma devastadora a produção local. Nossa indústria de equipamentos para infraestrutura, por exemplo, que tem alta agregação de valor local, vive hoje o pior dos mundos. A concorrência predatória, provocada pelo câmbio desfavorável, está exterminando essa indústria de forma impiedosa, transformando-se em mais um fator a empurrar o país para a desindustrialização. Nesse setor, muitas empresas poderão rever seus planos de investimento, uma vez que, para levá-los adiante, é necessário um cenário de estabilidade que ofereça condições isonômicas de competição. A retirada dos investimentos, além de diminuir a produção e gerar desemprego, ocasionará também a redução drástica no aporte que se faz em pesquisa, desenvolvimento e inovação da produção.

A concorrência internacional tem-se intensificado, exigindo das empresas maior velocidade na incorporação de novas tecnologias e capacidade financeira e organizacional para realizar investimentos e as parcerias necessárias. A indústria local enfrenta o grande desafio de competir com uma indústria globalizada, que praticamente se reinventa a cada cinco anos. A formulação de políticas públicas destinadas à superação de obstáculos e o aproveitamento pleno das oportunidades mostram-se necessários para estimular o desenvolvimento do setor. E, nesse sentido, a experiência bem-sucedida de outros países que estimularam o desenvolvimento dessa indústria é importante referência para o Brasil.
A nós, representantes da indústria, cabe o papel de cobrar dos poderes constituídos a adoção de políticas que estimulem a produção local e que ofereçam condições de competitividade em relação ao mercado mundial. Também é nosso papel formular propostas que alterem o rumo catastrófico da desindustrialização. No estudo “A indústria eletroeletrônica em 2020”, a Abinee apresenta uma série de sugestões que, se implementadas, poderão alavancar o faturamento das empresas instaladas no Brasil, fazendo com que a participação do nosso setor no PIB passe dos atuais 4% para 7% em 2020. O documento, apresentado às várias instâncias do governo, visa fazer com que a indústria elétrica e eletrônica brasileira seja mais autônoma, o que inclui o domínio da tecnologia.