Abram Szajman, presidente da Federação e Centro do Comércio do Estado de São Paulo e dos Conselhos Regionais do Sesc e do Senac.

Os dirigentes das principais instituições financeiras internacionais têm destacado o eficiente comportamento da economia brasileira em face da crise de outubro de 2008 e estendem iguais elogios no que toca à atual crise europeia originada da Grécia. Entretanto, a solução para o que ocorre hoje na Europa, com reflexos em todos os continentes, é extremamente complexa e devemos conscientizar-nos de que não ficaremos imunes aos desdobramentos dessa crise.
Em recente entrevista, Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central europeu, declarou que a Europa vive no momento sua maior crise desde o fim da Segunda Guerra. No meu entender essa referência tem apenas uma conotação relativa. Em 1945, a Europa do pós-guerra ainda não tinha suas fronteiras claramente definidas, sobretudo ao leste, onde a União Soviética assinalava nos mapas os países que ficariam sob seu domínio. A Europa ocidental, por seu turno, era uma colcha de retalhos dependente de maciça ajuda econômica externa, que se consumou com a implantação do Plano Marshall.
A União Europeia, solidificada a partir do tratado assinado na Holanda em 1992, deu a impressão de que a Europa de fato se constituiria numa só entidade, e essa noção foi-se tornando mais impositiva na medida em que avançava a globalização da economia mundial. Agora, porém, constato que a colcha de retalhos permanece, e este fator coloca em dúvida e risco o soerguimento da economia européia, com futuras repercussões inevitáveis em nossa economia.
Pelo começo, muita gente se pergunta como é possível que a Grécia, cujo PIB é o 36º do mundo (o do Brasil oscila entre o sexto e o sétimo lugares), foi capaz de desencadear uma crise de tamanhas proporções. A resposta está no efeito dominó que a globalização provoca e também na falta de memória. Em 1997, uma crise econômica na Tailândia estendeu-se pela Ásia e, em seguida, por diversos países, só tendo sido contornada por consistentes ajudas internacionais. Hoje, apesar do socorro bilionário dado à Grécia e trilionário para a Europa em geral, são poucos os indícios de que a Grécia conseguirá saldar suas dívidas pelo menos a médio prazo. Assim, por menos significativa que seja a economia grega, esta é devedora de enormes quantias aos bancos da França e da Alemanha. A Espanha é credora de Portugal, mas também é devedora de bancos da França, da Alemanha e de outros países europeus.
Tal situação, mesmo vista de forma sucinta, demonstra a total ausência de homogeneidade econômica entre as nações que compõem a União Europeia. (Por aqui, vemos isso ocorrendo no Mercosul). Apesar de unidos por tratados e pela mesma moeda, alguns desses países continuam enfrentando problemas existentes há mais de 60 anos, ou seja, desde o fim da Segunda Guerra. É verdade que a implantação da União trouxe-lhes, no início da década de 90, apreciáveis surtos de desenvolvimento. Entretanto, para citar apenas um exemplo, é abissal a diferença entre a economia de Portugal comparada com a da Alemanha. A enxurrada de euros que agora é despejada na Europa vai apenas fazer com que os ricos fiquem mais ricos e os pobres mais pobres, quando se observa a globalização em seu âmbito de fato universal. Em 2005, o então G-7 reuniu-se na Escócia e acertou uma ajuda substancial para o Saara subafricano com prazo de cumprimento de cinco anos. Até o fim do ano passado, apenas 44% dos recursos tinham sido disponibilizados.
Não devemos nos iludir. Os países ricos e desenvolvidos continuarão a agir de forma leniente no socorro aos pobres do planeta. A economia europeia só poderá recuperar-se em ritmo lento e se houver em toda a União severo ajuste fiscal e difícil renúncia por parte de suas populações a inúmeros benefícios, começando por cortes em subsídios e se estendendo a salários e aposentadorias. É evidente que a Europa há de sobreviver, mas, ao longo dos próximos anos, nossas relações comerciais com os países da União sofrerão baixas acentuadas e temos de preparar-nos desde já para um futuro que se apresenta cada vez mais próximo. Assim como a Europa, teremos de comportar-nos com austeridade e, ao mesmo tempo, manter a confiança no mercado. Não é mais possível continuar adiando as reformas, sobretudo a fiscal. Isso apenas significa que não podemos gastar mais do que temos. Trata-se de simples questão de aritmética, que até prescinde da ajuda dos computadores.