Antônio Corrêa de Lacerda é doutor em economia, pelo Instituto de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp) e mestre pela PUC-SP. É também economistachefe da Siemens Brasil e foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e Globalização, entidade da qual foi presidente (2000- 2005), vice-presidente (1998 a 2000) e atual membro do Conselho Consultivo. Foi diretor do Departamento de Economia da Fiesp (1998-2002) e do Ciesp (2003- 2007). É membro do Conselho Superior de Economia da Fiesp, do Conselho Temático de PolÃtica Econômica Confederação Nacional da Indústria e do Conselho do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial.
Autor de vários artigos e livros como Desnacionalização (Contexto, 2000), um dos ganhadores do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, na área de economia, e articulista do jornal O Estado de S. Paulo, Lacerda revela, nesta entrevista, que este é o ano do varejo. O setor tem muito espaço para crescer, até porque o aumento do consumo das classes C e D continuará bem aquecido.

Qual é sua avaliação sobre a economia brasileira?
O cenário econômico brasileiro é muito positivo. O governo foi bastante ousado e reverteu os resultados de uma crise bastante preocupante, que teve, entre seus efeitos, a redução de 7% do PIB no México e 8% na Rússia. Além disso, com mais de R$ 200 bilhões de reserva cambial, o governo reduziu os juros e impostos e, com a capitalização dos bancos públicos, ampliou o crédito, o que impulsionou diversos setores, entre eles o varejo. A excelente maneira de comunicar-se com a população foi outra atitude positiva do governo, que trouxe como consequência a não diminuição do consumo interno.
E as perspectivas para este ano?
As boas perspectivas devem continuar. Acredito que este ano nosso PIB crescerá em torno de 5% ou 6%, impulsionado pelo mercado doméstico.
Como se comportará o varejo do segmento de eletros?
Diante do aumento das ofertas de emprego, de crédito e da massa salarial, este será um ano de excelente oportunidade para o setor de eletroeletrônicos e eletrodomésticos, uma vez que a população está sempre em busca de conforto. Isso vale principalmente para as classes C e D, que são as mais beneficiadas pelo cenário atual. Além disso, a inadimplência nessa camada da população é muito baixa.
Após o fim da redução do IPI, o que a indústria de linha branca deve fazer para manter as taxas de crescimento?
Acredito que o principal desafio desse segmento não é sustentar a demanda, e sim recuperá-la. Ou seja, a ampliação de investimentos em produtos, sem mexer nos preços pode, e será, um diferencial. Mais uma vez, o Brasil aprendeu com a crise e conseguiu reduzir impostos sem perder a arrecadação, o que gerou mais empregos e ofereceu oportunidades de consumo à população, que tem adquirido em maior quantidade os produtos desse segmento.
A série de fusões no setor, principalmente dos grandes magazines, facilita a vida dos fabricantes? E qual o papel do consumidor nesse cenário?
Essa movimentação é consequência da crise e da globalização, que exige maior ampliação de serviços. Sem dúvida, esse movimento continuará ainda mais com o aumento de investimentos globais em empresas locais. Entretanto, as companhias brasileiras conhecem bem o mercado e têm excelente base de clientes. Por outro lado, algumas não têm braço para manter a oferta de serviços e são alvo de aquisições multinacionais. A fusão com concorrentes é natural, justamente para manter a nacionalidade. O consumidor tem papel fundamental nesse processo. Este ano é do varejo, há muito espaço para crescimento, uma vez que somos a oitava maior economia do mundo e o aumento do consumo das classes C e D continuará de forma bem aquecida.
Como o Brasil deve se preparar para um momento delicado como o que atingiu a Grécia?
Acredito que essa crise não deverá nos atingir. Esse momento que a Grécia atravessa passa longe do que foi a crise do ano passado, uma vez que aquele paÃs representa apenas 2,5% do bloco europeu. Claro que isso gera certa turbulência, porém os próprios paÃses europeus socorrerão a Grécia, e isso não deverá atingir outros continentes.
Quais dicas o senhor dá para que fabricantes e varejistas continuem reagindo e contribuindo para o crescimento da economia nacional?
A melhor maneira de manter o crescimento é estar próximo das novas demandas, que prezam por preços competitivos, condições de crédito adequadas, qualidade de produtos e bom atendimento. Vale a pena sacrificar margens por unidades e ganhar no volume, afinal de contas, esse é um mercado em ascensão que está atento e é exigente. Outra dica é estar antenado com novas mÃdias, contudo é importante preservar o bom atendimento, que é oferecido diretamente na loja, sempre investindo na capacitação dos colaboradores